Palavras no jardim
Entrar no campo da palavra é se atentar para além da prosódia. No jardim de infância temos a possibilidade de enxergar acontecimentos grandiosos: o que uma criança antes mediava através do tapa, do grunhido, do choro, ela passa a mediar pela voz. "Não!" passa a ser uma expressão companheira, tanto quanto o olhar, o movimento. As brincadeiras, antes experimentais e primariamente objetais, passam a ser antecipadas, planejadas, e surgem convites, entoados em frases: "Vamos brincar disso? Fazer aquilo? Coloca lá! Vem aqui! Sai! Não é assim!"; a ideação, a Imagem do brincar, se externa pelas primeiras gramáticas. Uma ideia, uma vontade, se coloca materialmente no mundo.
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Podemos pensar que uma criança que está se utilizando de certos comportamentos precisa de imagens, ideias, a serem colocadas em seu mundo com a motivação última de transformar estes comportamentos. É um bom instrumento de manejo de classe - não queremos ver o menino X mordido todos os dias pelo menino Y, nem a menina Z estraçalhando brinquedos. Entraríamos, aqui, no mérito de histórias metafóricas, inventadas sob medida, repetidas em fé de que surjam o efeito esperado.
Penso nas narrativas que entoamos em nossos comandos, em nossas transições espaciais e temporais, em intervenções diretas e bruscas que são parte de nosso trabalho como educadoras. A qualidade das nossas Imagens e de nossa convicção nelas é fundamental para que funcionem, para que transformem nossa Sala de Aula Pensada na Sala de Aula Material em que nos encontramos.
Em se tratando da pedagogia waldorf, muito nos convencemos da necessidade da suavidade, da mansidão: o que peço aos alunos eu também peço a mim, e o peço gentilmente, ainda que por vezes de forma mais incisiva. Cantar é o que dispomos de mais importante para a atenção dos ouvidos; fazemos de nossas cordas vocais, de nosso pulmão e de nossa língua instrumentos pedagógicos. Como nos ensinam: é na ação muscular que movemos o mundo - e que nos movemos como professoras.
As histórias cantadas, da roda rítmica, são a oportunidade de conhecer e reconhecer vida e cultura pela forma do teatro e da mímese. São uma aula expositiva para crianças pequenas: este é o gesto de um pássaro e assim nós podemos replicá-lo; esta é uma canção primaveril que nos ajuda a enxergar as flores que brotam no canteiro que plantamos juntos; estas são as danças e poesias de nossa, e de outra, região; esta é a maneira em que a humanidade brinca há muito tempo, a ciranda. Estas são as palavras que usamos para falar disso e daquilo mais.
É envolta em linguagem poética a vida da criança no jardim.
Em outro momento procuro discorrer mais propriamente sobre os contos que contamos em momento formalizado para isso (a contação de história do final de cada dia).

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