Primeiras perguntas

Quem é a professora do jardim de infância waldorf? Será a cuidadora, feminina, maternal mulher que replica a vida doméstica? Será a mulher infantilizada, despossuída de individualidade, que transita como um anjo da guarda? Será a figura litúrgica que prega a religiosidade? Será ela um contraponto à pedagoga, intelectual, pesquisadora, profissional da educação infantil?

Quem é a jardineira?

E por que ela assim se denomina?

Eu me lembro da minha primeira visita a um jardim waldorf. Fui de cachecol no pescoço e bloco de anotações na mão. No bolso, uma caneta. Era manhã e fazia frio.

Guardo até hoje as impressões escritas – e as impressões internas.

Foi um grande estranhamento.

As professoras cantavam – sim, cantavam! – às crianças, atarefadas em aquarelas: “arregaça a manga!”, “puxa a cadeira!”. Uma criança menorzinha se demorava na contemplação – ela não pintava como as outras. Aliás, nem todas estavam sentadas, pintando. Algumas brincavam de outras coisas, e não eram chamadas.

A mesa logo deu lugar à preparação do lanche. Crianças pilavam gergelim. Outras preferiam montar brincadeiras. Toda a sala se revirava, mas não estava desordenada. Quando alguém se empolgou brincando e soltou um grito, a professora pediu: “um grito menor, por favor! Um grito que caiba no jardim.” Quando um entrave começou a acontecer por conta de uma corda, a professora interferiu: “te puxaram demais, hein, corda?!”.

Três crianças se empenhavam em trazer um colchão de um lugar para outro. Eu me levantei da cadeira para ajudar. De longe, como quem tem um terceiro olho, uma professora me avisa: “Não interfira na brincadeira!”. Oras, se não se interfere na brincadeira... que se faz? Sentei outra vez, e segui anotando: paredes brancas, piso de madeira, quadros de anjos, brinquedos rústicos, cortinas vermelhas – ou serão salmão? – e muita liberdade de escolha: pequenos grupos brincando de coisas distintas, criancinhas menores que preferiam ficar coladas às professoras, crianças que escolhiam brincar somente com os olhos, observando.

Vieram momentos dirigidos: uma canção entoava o momento de guardar os brinquedos, de ir ao banheiro, de se preparar para o lanche. Esperando para lavar as mãos, uma professora escolhia em parlenda – uni, duni, tê – os próximos da fila. Meninos e meninas faziam xixi, um na frente do outro, sem pudor algum. Uma pequenina tentou escapar e pegar um brinquedo, ao que foi dita, “oras, esse brinquedo já está dormindo” e reconduzida sem nem reclamar! “Que lúdico”, eu lembro de ter pensado...

E, claro, houve uma roda. Uma ciranda cantada, dançada, encenada, sobre um pássaro... “Aracuã”, anotei rápido, para não me distrair do que via. Foi um encantamento. Era como se uma história tivesse sido contada, mas não como se contam histórias...

Um novo, inédito para mim, modo de se contar histórias.

O lanche se deu na grande mesa das aquarelas e da pilagem. As professoras se sentavam junto às crianças – e havia uma cadeira, uma tigela, um copo para mim também. Uma vela foi acesa, um agradecimento foi cantado, e comemos todos, arroz, gersal e uva passas, e... “chááá...chá da Índia, chá da Pérsia, chá chinês”... ao que descobri ser um chá de hortelã.

Ao fim do lanche, fomos para o quintal, de galochas nos pés. As crianças iam em duplas, ou trios, de mãos dadas, aos pedidos da professora: “Fulano, cuide de Beltrano, leve-o com você...”

A travessia era curta. Chegando lá... Não era um playground: era, verdadeiramente, um quintal. Havia um escorregador, um balanço, e nada mais.

“Nada mais”, é claro, para mim. As crianças logo me revelaram pás, panelas, carrinhos de jardinagem, colheres, bambolês, flores, barro, folhas; balanços escondidos nas cordas amarradas nas árvores, e mil jeitos de se balançar... Brinquedos aos montes, para quem sabia olhar.

Observei uma professora cardar lã, sentada com seu avental vermelho.

Eu só podia pensar em termos comparativos com a experiência que havia tido até então na educação infantil; no jardim waldorf, havia um quê de organicidade, um aspecto orgânico, que ainda não havia aparecido em minha trajetória acadêmica ou profissional. A manhã não parecia um apanhado de simulacros: seguia um ritmo muito próprio; ou seria muito bem apropriado? O uso do tempo, do espaço e das modulações de voz e movimento, de corpo e de linguagem, eram muito naturais...

Antes de ir embora, uma história. Um conto sobre um cavalo, contado oralmente, em círculo. Com vela acesa, começo, meio e fim ritualizados. E enfim, a espera no portão pelos adultos que recolhiam suas crianças prontas para adormecer uma sesta, embaladas pelo último ritual que haviam vivido. Um dos meninos mais velhos me mostrava: “quer ver quanto tempo eu consigo ficar de uma perna só?”, e eu, é claro, ia contando os segundos junto com ele. Ao que uma professora me faz um último pedido: “não traga ele para o consciente agora... é hora de dormir.”

“Não parece uma escola”, eu contei para mim mesma. O que era uma escola? O que poderia ser uma escola?

Na época, minha irmã estava perto dos 3 anos. E perto dos 3 anos ela começou a frequentar sua primeira escola: este mesmo jardim de infância.

Minha irmã, um patinho amarelo, de galochas, chapéu, capa e mãos dadas.

E conforme minha irmã aprendia a viver pelo jardim, eu aprendia também. E fui decifrando: que manhã era aquela – e quem eram aquelas professoras? Redirecionei, então, minhas perguntas: o que era um jardim de infância waldorf?


Comentários

  1. Amo tanto ler seus textos

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  2. Eu chorei lendo!!!! Como escreve!!!! Como em palavras traz um mundo e uma lembrança inteira em nossa frente ! Maravilhosa Isa!!!!

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