Primeiras perguntas
Quem é a professora do jardim
de infância waldorf? Será a cuidadora, feminina, maternal mulher
que replica a vida doméstica? Será a mulher infantilizada, despossuída de
individualidade, que transita como um anjo da guarda? Será a figura litúrgica
que prega a religiosidade? Será ela um contraponto à pedagoga, intelectual,
pesquisadora, profissional da educação infantil?
Quem é a jardineira?
E por que ela assim se
denomina?
☆
Eu me lembro da minha primeira
visita a um jardim waldorf. Fui de cachecol no pescoço e bloco de anotações na
mão. No bolso, uma caneta. Era manhã e fazia frio.
Guardo até hoje as impressões
escritas – e as impressões internas.
Foi um grande estranhamento.
As professoras cantavam – sim,
cantavam! – às crianças, atarefadas em aquarelas: “arregaça a manga!”, “puxa a
cadeira!”. Uma criança menorzinha se demorava na contemplação – ela não pintava
como as outras. Aliás, nem todas estavam sentadas, pintando. Algumas brincavam
de outras coisas, e não eram chamadas.
A mesa logo deu lugar à
preparação do lanche. Crianças pilavam gergelim. Outras preferiam montar
brincadeiras. Toda a sala se revirava, mas não estava desordenada. Quando
alguém se empolgou brincando e soltou um grito, a professora pediu: “um grito
menor, por favor! Um grito que caiba no jardim.” Quando um entrave começou a
acontecer por conta de uma corda, a professora interferiu: “te puxaram demais, hein,
corda?!”.
Três crianças se empenhavam em
trazer um colchão de um lugar para outro. Eu me levantei da cadeira para ajudar.
De longe, como quem tem um terceiro olho, uma professora me avisa: “Não
interfira na brincadeira!”. Oras, se não se interfere na brincadeira... que se
faz? Sentei outra vez, e segui anotando: paredes brancas, piso de madeira,
quadros de anjos, brinquedos rústicos, cortinas vermelhas – ou serão salmão? –
e muita liberdade de escolha: pequenos grupos brincando de coisas distintas,
criancinhas menores que preferiam ficar coladas às professoras, crianças que escolhiam
brincar somente com os olhos, observando.
Vieram momentos dirigidos: uma
canção entoava o momento de guardar os brinquedos, de ir ao banheiro, de se
preparar para o lanche. Esperando para lavar as mãos, uma professora escolhia
em parlenda – uni, duni, tê – os próximos da fila. Meninos e meninas faziam
xixi, um na frente do outro, sem pudor algum. Uma pequenina tentou escapar e
pegar um brinquedo, ao que foi dita, “oras, esse brinquedo já está dormindo” e
reconduzida sem nem reclamar! “Que lúdico”, eu lembro de ter pensado...
E, claro, houve uma roda. Uma
ciranda cantada, dançada, encenada, sobre um pássaro... “Aracuã”, anotei
rápido, para não me distrair do que via. Foi um encantamento. Era como se uma
história tivesse sido contada, mas não como se contam histórias...
Um novo, inédito para mim,
modo de se contar histórias.
O lanche se deu na grande mesa
das aquarelas e da pilagem. As professoras se sentavam junto às crianças – e
havia uma cadeira, uma tigela, um copo para mim também. Uma vela foi acesa, um
agradecimento foi cantado, e comemos todos, arroz, gersal e uva passas, e...
“chááá...chá da Índia, chá da Pérsia, chá chinês”... ao que descobri ser um chá
de hortelã.
Ao fim do lanche, fomos para o
quintal, de galochas nos pés. As crianças iam em duplas, ou trios, de mãos
dadas, aos pedidos da professora: “Fulano, cuide de Beltrano, leve-o com
você...”
A travessia era curta.
Chegando lá... Não era um playground: era, verdadeiramente, um quintal. Havia
um escorregador, um balanço, e nada mais.
“Nada mais”, é claro, para
mim. As crianças logo me revelaram pás, panelas, carrinhos de jardinagem,
colheres, bambolês, flores, barro, folhas; balanços escondidos nas cordas
amarradas nas árvores, e mil jeitos de se balançar... Brinquedos aos montes,
para quem sabia olhar.
Observei uma professora cardar
lã, sentada com seu avental vermelho.
Eu só podia pensar em termos
comparativos com a experiência que havia tido até então na educação infantil;
no jardim waldorf, havia um quê de organicidade, um aspecto orgânico, que ainda
não havia aparecido em minha trajetória acadêmica ou profissional. A manhã não
parecia um apanhado de simulacros: seguia um ritmo muito próprio; ou seria
muito bem apropriado? O uso do tempo, do espaço e das modulações de voz e
movimento, de corpo e de linguagem, eram muito naturais...
Antes de ir embora, uma
história. Um conto sobre um cavalo, contado oralmente, em círculo. Com vela
acesa, começo, meio e fim ritualizados. E enfim, a espera no portão pelos
adultos que recolhiam suas crianças prontas para adormecer uma sesta, embaladas
pelo último ritual que haviam vivido. Um dos meninos mais velhos me mostrava: “quer
ver quanto tempo eu consigo ficar de uma perna só?”, e eu, é claro, ia contando
os segundos junto com ele. Ao que uma professora me faz um último pedido: “não
traga ele para o consciente agora... é hora de dormir.”
☆
“Não parece uma escola”, eu
contei para mim mesma. O que era uma escola? O que poderia ser uma escola?
Na época, minha irmã estava perto dos 3 anos. E perto dos 3 anos ela começou a frequentar sua primeira escola: este mesmo jardim de infância.
E conforme minha irmã aprendia
a viver pelo jardim, eu aprendia também. E fui decifrando: que manhã era aquela – e quem eram aquelas professoras? Redirecionei, então, minhas perguntas: o que era um jardim de infância waldorf?

Muito bacana Isabelle!!
ResponderExcluirQue lindo... ❤️
ResponderExcluirAmo tanto ler seus textos
ResponderExcluirEu chorei lendo!!!! Como escreve!!!! Como em palavras traz um mundo e uma lembrança inteira em nossa frente ! Maravilhosa Isa!!!!
ResponderExcluir